Sintaxe À Vontade

“A partir de sempre
Toda cura pertence a nós.
Toda resposta e dúvida.
Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser,
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto.
Nenhum predicado será prejudicado,
Nem tampouco a frase, nem a crase, nem a vírgula e ponto final!
Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas,
E estar entre vírgulas pode ser aposto,
E eu aposto o oposto: que vou cativar a todos
Sendo apenas um sujeito simples.
Um sujeito e sua oração,
Sua pressa, e sua verdade, sua fé,
Que a regência da paz sirva a todos nós.
Cegos ou não,
Que enxerguemos o fato
De termos acessórios para nossa oração.
Separados ou adjuntos, nominais ou não,
Façamos parte do contexto da crônica
E de todas as capas de edição especial.
Sejamos também o anúncio da contra-capa,
Pois ser a capa e ser contra a capa
É a beleza da contradição.
É negar a si mesmo.
E negar a si mesmo é muitas vezes
Encontrar-se com Deus.
Com o teu Deus.”

(Composição: Fernando Anitelli – O Teatro Mágico)

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Sem Plumas

Sem Plumas, Woody Allen – Ed. Circulo do Livro S.A., 1978 SEM_PLUMAS_1289081178B

Já fiz um recortes de trechos desse livro aqui no blog, mas ao terminar a leitura achei que seria legal contar mais.
O livro contém fragmentos do diário de Allen, ensaios e duas peças de teatro. Tudo é escrito com um humor sarcástico e gostoso. Woody Allen é engraçado por essência.

Como o livro é uma reunião de coisas, escolhi os pontos altos, ou seja, meus escritos preferidos:

1) Morte (Peça de um ato): Um homem é acordado no meio da noite para entrar em um plano a fim de capturar um tarado que está a solta pela cidade. Apesar de desnorteado, ele acaba indo e… coisas acontecem.

2) Guia breve, porém útil, da desobediência: Aqui, Allen da dicas básicas sobre como iniciar uma revolução (rs).

Para se fazer uma revolução precisa-se de duas coisas: primeiro, alguém ou alguma coisa contra a qual se revoltar; segundo, alguém para fazer efetivamente a revolução. O traje é informal e ambas as facções devem ser flexíveis a respeito o local e hora do evento.” (pg. 125)

Ele nos conta também sobre alguns métodos de desobediência civil.

Greve de fome: Quando o oprimido fica sem comer até que suas exigências sejam atendidas (…)  O problema da greve de fome é que, depois de alguns dias, fica-se com uma bruta fome, e o governo então se aproveita para fazer com que todos os alto-falantes transmitam exclamações como “Hum… que delicia esta galinha…” ou “Pode me passar o molho?” ou “Já provou esta mousse?”. (pg. 126)

Greve sentada: Quando uma pessoa escolhe um determinado lugar na fábrica e senta-se sem trabalhar (…) Como na greve de fome, os opressores tentarão por todos os meios fazer o grevista levantar-se. Poderão dizer: “Ok, rapazes, é hora de ir para casa!” ou “Podia levantar-se um pouquinho? Queria ver se você é mais alto do que eu.

Passeatas: A principal finalidade de uma passeata é a de ser vista pela população (…) Durante a passeata é conveniente levar faixas e cartazes, para deixar em claro a posição dos manifestantes…” (pg. 127)

3) Ensaio sobre o amor:
É melhor amar ou ser amado? nenhum dos dois, se a sua taxa de colesterol estiver acima de seiscentos. Quando falo de amor, naturalmente me refiro ao amor romântico (…) Para ser um grande amante deve-se ser forte e, ao mesmo tempo, terno. Mas forte até que ponto? Acho que basta conseguir levantar trinta quilos. É preciso também ter em mente que, para quem ama, a mulher amada é sempre a coisa mais linda do mundo, mesmo que para um estranho ela seja indistinguível de um prato de mexilhões. A beleza está nos olhos de quem vê. Se quem vê for míope ou estrábico deve perguntar a pessoa ao lado qual é a garota mais bonita.
“As alegrias do amor duram apenas um instante”, catou o bardo, “mas suas dores duram uma eternidade”… (pg. 123)

4) Se os impressionistas tivessem sido dentistas: Allen recria as cartas que o pintor Vincent Van Gogh enviava ao seu irmão Theo. Conta os fatos como se, ao invés de pintor, Van Gogh fosse dentista.

Prezado Theo,
Sim, é verdade. A orelha à venda no mercadinho é a minha. Acho que fiz uma besteira, mas eu queria mandar um presente de aniversário a Claire no sábado passado e todas as lojas estavam fechadas. Não sei porque ela a vendeu para o mercadinho. Ora, bolas. talvez eu devesse ter ouvido o que papai dizia e me tornado pintor. Pode não ser tão emocionante, mas a vida seria mais estável. (pg. 224)

.haha.

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Uma ótima vida!
Valeu. :*

Sopa de versos – Reinventando Drummond.

Já pensou em juntar versos aleatórios de poemas e ver qual seria o resultado? Com essa ideia (e tempo ocioso), resolvi fazer o que denominei de ~sopa de versos~. Como ingrediente principal utilizei poemas famosos do Carlos Drummond de Andrade. Mas se você não tiver Drummond, pode substituir por Fernando Pessoa, por exemplo.
E eis que surge um novo poema. Façam em casa, a experiência é legal!

“Mundo mundo vasto mundo
Depois de tantos combates
Provisoriamente não cantaremos o amor
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera.

Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
ninguém a rouba mais de mim.”

(Os versos foram tirados das seguintes obras: Poema de Sete Faces, Poema da Purificação, Congresso Internacional do Medo, Para Sempre, Tarde de Maio, A Máquina do Mundo e Ausência).


Uma ótima vida!
Valeu. :*

Conpozissõis Imfãtis do Millôr

(Do livro Conpozissõis Imfãtis, Millôr Fernandes, 1975)

Para os adultos infantilizados (sou), fiz uma seleção de 5 “Conpozissõis Imfãtis” escritas por Millôr Fernandes. Ele conseguiu descrever alguns pedacinhos do mundo com simples verdades. :}

O que uma criança diria sobre…

O Escuro

“O escuro é onde a gente vê o que não está lá. Vem quando a mamãe diz: “Boa noite, dorme direitinho, meu filhinho” e apaga a luz. Aí a gente só sente os barulhos e fica pensando noutras coisas completamente diferentes daquelas que tem no quarto quando o quarto está claro. Aí dá muito medo e a gente chora até que a mãe da gente volta e acende a luz e o escuro sai pro corredor.”  ❤

O Leão

“O leão é um animal que há muito tempo não vai ao barbeiro. Senão teria cortado o cabelo e ficaria muito igual à mulher dele. O leão tem a cabeça muito grande que é para não poder fugir da jaula. Agora na jaula quem põe ele lá é o guarda e aí está por que é o rei dos animais. O leão dizem que é feroz mas deve ser quando a gente não está olhando porque quando a gente está olhando ele fica o tempo todo dormindo e não há jeito de enferocizá-lo e quem fica furioso com isso é o guarda. O leão também papai gosta muito de jogar nele mas isso só quando sonha com elefante. E aí é que dá cobra.”

O Doutor

“O doutor é o homem que escreve com aquela letra que se a gente escrevesse assim levava zero. Só vem quando tem gente doente na família, e o que é mais triste é que cobra quinhentos cruzeiros. Papai fala mal dele quando ele vai embora, e mamãe só toma o que a vovó recomenda. Quando eu crescer eu quero ser dos que recebem as quinhentas pratas e não dos que pagam.”

O Sexo

“O sexo é uma coisa que todo mundo tem, só com a diferença que nas mulheres é feminino e nos homens é masculino. É uma coisa que quando a gente quer saber mais sobre, a mamãe manda perguntar ao papai e o papai diz que depois explica. Eu já sei também que o sexo é uma forma de energia para fazer funcionar a telefônica, porque noutro dia minha tia disse que se não existisse ele (sexo) os telefones do mundo não funcionavam nem a metade.”

A Criança

“A criança é uma coisa assim bem depressa, assim bem macia, cheia de muitas palavras erradas que todo mundo ri. Elas gostam bastante só de brincar e têm medo de apanhar porque estão sempre fazendo aquilo que não devem. Elas querem tudo que vêem e pedem com a mão e com o olho. É muito difícil obrigar uma criança a se lavar, agora a se sujar não é não. Criança é muito teimosa e nunca faz o que os mais velhos mandam de modo que tem muita que ninguém quer. É por isso que eu nunca vi pai e mãe sem filho mas tem muito filho sem pai nem mãe.”

E algumas “Lissões de Coizas” (juro que são importantes!) para nunca esquecermos:

~ Uma bola é o que rola.
~ Branco é o sem cor nenhuma nele.
~ Colo é o que a gente quer de noite, mas de dia o quintal é melhor.
~ Comida tem sempre demais no prato mas sobremesa nunca tem bastante.
~ Crescido é o que se fica ao deixar de ser pequeno.
~ Cachorro é onde a gente bota a culpa duma porção de coisas que foi a gente que fez.
~ Sonho é o que dá um medo danado, mas quando a gente acorda a mãezinha está bem quentinha ali junto. (Quem nunca?!)
~ Resfriado é o que escorre do nariz.
~ Botão é pra gente andar sempre desabotoado.
~ Cachorro é pra gente chatear ele, a não ser os que avançam.

Qualquer dúvida, consultem a criança mais próxima! 😀


Uma ótima vida.
Valeu! :*

meu tipo de gente: neurótica.

Excertos de um diário…

“Pensamento: por que o homem mata? Para comer, é claro! E não apenas para comer: podem ficar certos de que há sempre uma Brahma na jogada.”

“Hoje vi um pôr-do-sol cheio de vermelhos e amarelos, e pensei: “Puxa, como sou insignificante!” O interessante é que ontem pensei a mesma coisa, embora estivesse chovendo…”

Examinando fenômenos psíquicos.

“Não há duvida de que o além existe. O problema é saber a quantos quilômetros fica do centro da cidade e até que horas fica aberto. Fatos inexplicáveis ocorrem constantemente. Um homem vê espíritos. Outro ouve vozes. Um terceiro acorda sobressaltado e se descobre de olhos. Quantos de nós já não sentimos uma mão gelada em nossa nuca quando estamos sozinhos em casa à noite? (Eu nunca, graças a Deus, mas muitos já.) O que há por trás dessas experiências? Ou na frente delas, se preferirem? Será verdade que algumas pessoas conseguem prever o futuro ou comunicar-se com os mortos? E depois da morte ainda será necessário tomar banho?”

(ALLEN, Woody. Sem Plumas. Escrito entre 1972 – 1975).


Uma ótima vida.
Valeu! :*