Conto: Crepúsculo de chumbo e ouro (Cristovão Tezza)

Do livro Contos para ler no bar (org. Miguel Sanches Neto)
Ed. Record, 2007.

Crepúsculo de chumbo e ouro – Cristovão Tezza (pg. 25)

           Essa história de escritor nasceu errada do princípio: ideia de Mara.
– Por que você não põe teus pesadelos por escrito? Uma terapia, meu amor. Solte o verbo, só faz bem.
Fui mordido pela mosca azul. Um escritor! Nada mau! E a ideia vindo de Mara, melhor ainda – isentava-me de responsabilidade. Comecei do começo: comprei uma máquina de escrever e 500 folhas de papel sulfite. Não era bem assim que Mara pretendera – a conversa de pesadelo e terapia -, mas eu tinha tal horror de me descobrir e não gostar do resultado que comecei por contar a história dos outros. Iniciei com um pavoroso homicídio num corredor sombrio, em que uma mulher loura era retalhada a navalha e depois empacotada numa lata de lixo. O crime foi presenciado por uma criança e um velho, que se esconderam num porão. Depois de algumas peripécias confusas, a loura ressurge na beira de um penhasco, nua, rodeada de cães fiéis e ferozes. Não sabia mais como acabar aquela idiotice; coloquei a palavra Fim – eram já umas quatro horas da madrugada – e no mesmo dia corri para mostrar a Mara, bicho amestrado a espera do torrão de açúcar.
– Não está mau – disse Mara, mordendo o lábio. Sorriu traiçoeira: – Pelo menos não está muito mau. A propósito: paralisar escreve-se com esse.
Enquanto ela mesma corrigia miudezas com a caneta, eu percebi, satisfeito e irritado, que ela sentiu inveja. O sintoma: não olhava para mim. Não que a história fosse boa. Bastou Mara fazer correr seus belos olhos pelas linhas do texto, silenciosamente, página a página, com um sorriso infinitesimal suspenso nos lábios carnudos, para o sangue me subir à cabeça e eu morrer de formigamento e suor. Estava nu, justamente diante da minha maior inimiga. Mas havia alguma coisa naquele conto sem pé nem cabeça que perturbou Mara, que mesmo a incomodou, e mais ainda pela necessidade nervosa de aparentar benevolência.
– Essa loura sou eu, suponho.
– Ahn! Não pensei nisso. Você é morena.
– É claro.
– Como assim?
– O inconsciente, meu anjo. A censura. – Suspiro, e um sorriso: – Mas você é mesmo brilhante para um início de carreira. Que clima fantástico você criou! Ainda pode ser um bom escritor, mesmo.
– Não quero ser bosta nenhuma.
Recusei o beijo oferecido, mais por birra – a mosca azul surtia efeito -, e estendi o braço para recolher minha vergonha. Ela dobrou as folhas e guardou-as na bolsa. Reclamei:
– Me dê aqui esse troço de volta.
– Nada disso. Vamos mostrar para Fontana.
– Que Fontana?
– Um cara que entende de estética. Você precisa de alguns macetes. E agora me dê um beijo. Serei a sua empresária. Juntos, moveremos o mundo!
Tentei decifrar aquela ambiguidade; difícil acreditar que ela estivesse orgulhosa de mim. Talvez sim, pelo fato de eu ser um pupilo. E talvez ela desejasse que o conto resultasse mais ridículo ainda. De qualquer modo, no fim da tarde ela me levou ao bar Canarinho, onde Fontana presidia uma mesa ao pé da escada, já cheia de garrafas de cerveja, de admiradores e de um grande desencanto. Eu estava francamente nervoso; entrava de supetão no universo soturno dos homens das letras, dos escritores e dos poetas e, como sempre, sem preparo nem iniciação. Fontana não olhou para mim; preferiu prestar atenção à gravata, ao corte do meu terno, ao meu cabelo penteado, às minhas costeletas aparadas, à minha pasta de couro, talvez até o sapato lustroso – e sorriu, não sei se da minha imagem ou por deferência a Mara. Mara era irritantemente dada aos artistas, essa classe superior de gente. Trocaram beijinhos, toques de mão, sorrisos, numa cabala secreta. Havia outros Artistas à mesa, que não prestaram atenção à nossa chegada, exceto pelos olhares, rápidos e penetrantes, as pernas de Mara.
Fui rapidamente apresentado; abriu-se um espaço na roda, sentamo-nos e enchemos imediatamente os copos que o garçom, instantâneo, depositou na nossa frente. Fontana era poeta de prestígio e jornalista, sua profissão na vida real. Ficamos alguns dois ou três minutos sem assunto, até que Mara tirou da bolsa aquela bomba datilografada. Para controlar a vergonha (e o medo profundo do ridículo), bebi rapidamente minha cerveja, enchendo o copo, enquanto Fontana debruçava as barbas, severo, sobre a obra. Como estímulo, Mara apertava minha mão fria com seus dedos sedosos; aguardávamos tensos. Um editor de Nova York não seria tão respeitado. No meio daquele silêncio – o bar ainda com pouco movimento, Fontana sem despregar os olhos do papel – a imortalidade me sussurrou cânticos de glória. Quem sabe?
Virada a última página, o poeta pediu outra cerveja, depois de procurar alguma sobra nas garrafas vazias, e desfechou sem me olhar:
– Teu conto é um tanto ingênuo.
Antes que Mara começasse a me defender – tinha já empinado os peitos -, Fontana contemporizou:
– Mas é interessante.
O que, bem pensado, não quer dizer nada. Que merda fazia eu ali? Fiquei com um caroço na garganta. Teria Fontana encerrado seu veredicto? Não; deu um gole fundo, ocultou um arroto entre os dedos peludos, virou outra página, numa concentração sábia, e prosseguiu:
– É um texto romântico-fantástico. Mais para Poe do que para Kafka. Como você… – dedos torcidos no ar, ele procurava a palavra, os gênios também procuraram a palavra – como você definiria tua linha literária? – e me olhou nos olhos, surpreendentemente (para mim) como bonomia.
– Linha? – olhei para Mara, buscando socorro. Ela sorria, também esperando. – eu sou um ignorante. É a primeira coisa que escrevo.
Acredito que a simpatia de Fontana decorreu do fato de que eu não lhe fazer a mínima sombra. Encheu meu copo, protetor:
– O que você tem lido?
Mara me olhava, ansiosa – a infeliz realmente apostava nas minhas qualidades. Vamos lá, menino! Mostre de quem você é aluno!
– Eu?! – dei outro gole, demorado, para ganhar tempo. – leio… Leio um pouco de tudo, policiais, é… Os livros que a Mara me passa e… é isso ai.
Mara crispou as unhas na minha perna: com certeza eu estava enterrando para sempre meu futuro de escritor. Fontana agora era o general absoluto da mesa. Me remoí de ódio. A troco de que me submetia áquele inquérito ultrajante?
O mestre sorriu da minha bibliografia capenga e meteu novamente os olhos no conto, atrás dos defeitos. Bebi mais um gole.
– Posso dar uma sugestão?
– Claro.
Amargura azeda no peito, vi a imortalidade e o seu séquito de glórias desprezando-me para nunca mais.
– Você precisa trabalhar a linguagem. Enxugar o texto. Sabe como?
Fiz que sabia, já olhando a porta de saída.
– Por exemplo – e Fontana selecionou um parágrafo com a unha. – Ouça isto: nas ruínas despedaçadas da cidade, descia um crepúsculo de chumbo e ouro.
Fitou-me sorridente, à espera de que eu confessasse o crime. Virei um ouriço:
– Que é que tem?
Mãos me agarrando o joelho, Mara aconselhou pressentindo o estouro próximo:
– Preste atenção, meu amor, Fontana entende do riscado.
Fontana largou a página.
– Me desculpa, mas está muito ruim. Começa pela aliteração: despedaçadas da cidade descia. Soa mal, não? Da-da-da-da-da. Depois, a redundância: ruínas despedaçadas. Perfeitamente dispensável.
Meu rosto começou a queimar. Não suporto críticas: todas são destrutivas. Não suporto o mínimo arranhão aos meus gestos, falas, obras, pensamentos, atos – nada. Não posso tolerar o erro, passado, presente, futuro, consciente ou por acaso. Não admito reparos; sou inteiriço. Indiferente ao meu desespero – eu queria morrer-, Fontana prosseguia com requintes de crueldade e paciência:
– Até ai, tudo bem. Se a gente procurar, até a Clarice escorrega de vez em quando. Mas o ultimo trecho, por favor, não me leve a mal, mas é um horror: crepúsculo de chumbo e ouro! Um ranço, parece coisa do Coelho Neto, do pior Alencar, do…
-… Do José Sarney! – completou um dos Artistas, um barbudinho calhorda, explodindo numa gargalhada contagiante que Fontana (com uma ponta de respeito) reprimiu a custo.
Para início de conversa, foi o suficiente. Recolhi meu opróbrio da mesa, consegui dar um sorriso – sou vendedor, tenho de sorrir- e me arranquei, Mara atrás de mim feito carrapato.
– Que grosseria você me apronta!
– O Fontana que vá pra puta que pariu!
Continuei a andar, fumegando. Uma injustiça: hoje reconheço que aquela foi a melhor aula de literatura de toda a minha vida. Na Praça Osório ela me puxou com força:
– Calma, meu amor. Calma.
– Que de lado você está?
– Do teu, é claro. – parei superior, com vontade de chorar. – Mas, calma. No começo é assim. Não vamos brigar por besteira.
A mão dela estava quente na minha mão. Insisti:
– Crepúsculo de chumbo e ouro. Você não acha bonito?
– É claro que é. Ele não entendeu.
Decidi, fervoroso, nunca mais mostrar a ninguém nada do que eu escrevesse. Suspirei. Abraçados, contornamos a praça, enquanto descia na Curitiba em ruínas um crepúsculo de chumbo e ouro.

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Praça Osório – Curitiba – PR.

Sobre o autor: Cristovão Tezza nasceu em Santa Catarina, em 1952. Após a morte do seu pai, em 1959, mudou-se com a família para Curitiba, lugar que tomou como cenário para muitas das suas obras. :} 


Uma ótima vida!
Valeu. :*