O Apanhador no Campo de Centeio

Após um bom tempo de jejum, fico feliz em retomar as postagens neste espaço. 🙂

Minha resenha de “O Apanhador no Campo de Centeio”

Livro: O Apanhador no Campo de Centeio
Autor: J. D. Salinger
Ano de publicação: 1951

cms-image-004699984

“Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição.  Ninguém se mexia.  A gente podia ir lá cem mil vezes, e aquele esquimó ia estar sempre acabando de pescar os dois peixes, os pássaros iam estar ainda a caminho do sul, os veados matando a sede no laguinho, com suas galhadas e suas pernas finas tão bonitinhas, e a índia de peito de fora ainda ia estar tecendo o mesmo cobertor.  Ninguém seria diferente.  A única coisa diferente seríamos nós.  Não que a gente tivesse envelhecido nem nada.  Não era bem isso.  A gente estaria diferente, só isso.  Podia estar metido num sobretudo, dessa vez (…)  Ou então a gente tinha ouvido o pai e a mãe da gente terem a maior briga no banheiro.  Ou então a gente tinha acabado de passar, na rua, por uma poça d’água com um arco-íris de gasolina dentro dela. Quer dizer, a gente estaria diferente, de um jeito qualquer – não sei explicar direito, mas o negócio é assim mesmo.  E, mesmo que eu soubesse, acho que não ia ter muita vontade de explicar”(pg. 51)

Com esse trecho lindo, inicio a resenha do O Apanhador no Campo de Centeio, deixando claro que, diferente do que eu pensava antes de iniciar a leitura do livro, ele não se trata de uma história de fazenda, agricultura ou colheita. Muito pelo contrário. O Apanhador no Campo de Centeio tem como cenário uma das maiores metrópoles do mundo: a cidade de Nova York. Mas não a Nova York de hoje que costumamos ver nos filmes e seriados atuais. Trata-se da vida urbana dos anos 50; a vida urbana pós-guerra e com seus princípios ainda conservadores.

Quebrando muitos paradigmas da época, o autor escreve O Apanhador no Campo de Centeio e causa um grande alvoroço na população da época. Os motivos do choque?

  1. O personagem principal do livro é um adolescente. Todavia, adolescentes nos anos 50 não eram personagens principais em nada. Eram se quer vistos. Foi a partir da metade dos anos 50 e início dos 60 que a juventude passou a ser tratada como temática e percebida pela população. A esse fator, incluímos a explosão do rock n roll e de ícones da cultura da época, como por exemplo, James Dean e Elvis Presley.
  2. Não contente em ter um adolescente como narrador de sua própria jornada, o autor escreveu de tal modo que fosse exatamente a maneira como o adolescente falava, com simplicidade na linguagem e a escrita repleta de gírias, fugindo do coloquial.
  3. Durante a narrativa, o personagem aborda temáticas tais como namoro, sexo, puberdade, etc.

Essa mistura de ~escândalos~ transformaram O Apanhador no Campo de Centeio em um dos livros mais importantes e aclamados da literatura americana.

A história é narrada por Holden Caulfield, um jovem de 17 anos, de uma família de classe média alta que pela “milésima vez” é expulso do colégio. Porém, não seria certo dizer que Holden é um rebelde sem causa. Apesar do ódio que sente por tudo e todos, suas expulsões frequentes e sua dificuldade em fazer e manter amigos, Holden é apenas um adolescente que se recusa a crescer.

Ele busca seus modelos, mesmo não sabendo ao certo o que deseja; o irmão mais velho, antigos professores, um ex-colega de escola, são pessoas de quem Holden retira aprendizados, ainda que não perceba. Ser adolescente é se moldar, certo?! Todos já fomos adolescentes e sabemos como é difícil tal fase. Uma vez que, somos grandes demais para sermos crianças e novos demais para sermos adultos por completo. E é nessa transição angustiante emocional, física e psicologicamente em que Holden se encontra. Com sua síndrome de Peter Pan, Holden recusa-se a se render ao sistema acadêmico, as regras familiares, as amizades vazias e aos modismos momentâneos.

E para exemplificar seu processo, Holden utiliza, genialmente, a metáfora do campo de Centeio e do seu grande abismo.  O que ele não quer para si, não deseja para mais ninguém. Acredita que o mundo dos adultos seja repleto de hipocrisia, inconsistência e pessoas ainda mais perdidas (ele tem razão, né?!)

“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começa a correr sem saber onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Quando se termina a leitura do livro, logo se pensa que Holden tem muito que aprender e viver. Mas, bem no fundo, a gente deseja que tudo aconteça na hora e momentos certos. Sem pressões, sem precocidade… para que, apesar de muitas vezes triste, ele desfrute da sua juventude.

O Apanhador no Campo de Centeio mudou a minha vida.

O principal motivo é a identificação que Holden trás a tona. A sua marginalidade é tão visível, que desperta a empatia e aquela sensação de “Holden, eu te entendo.” Assim, o grande abismo passa a fazer tanto sentido que explica o porque da influência do livro nas contraculturas das décadas posteriores. Holden é um herói por essência e o seu desejo de “salvar” os seus semelhantes do grande abismo é uma das ideias mais lindas que já experimentei conhecer. Grata por essa leitura!

Além disso, a obra de J. D. Salinger, foi referência para outros artistas.
Por exemplo, a banda Green Day gravou a música “Who Wroten Holden Caulfield?”. E o Guns N’ Roses, a música “Catcher In The Rye”.

“He makes a plan to take a stand but always ends up sitting.
Someone help him up or he’s gonna end up quitting…”


Uma ótima vida.
Valeu! :*

 

Anúncios