O Apanhador no Campo de Centeio

Após um bom tempo de jejum, fico feliz em retomar as postagens neste espaço. 🙂

Minha resenha de “O Apanhador no Campo de Centeio”

Livro: O Apanhador no Campo de Centeio
Autor: J. D. Salinger
Ano de publicação: 1951

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“Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição.  Ninguém se mexia.  A gente podia ir lá cem mil vezes, e aquele esquimó ia estar sempre acabando de pescar os dois peixes, os pássaros iam estar ainda a caminho do sul, os veados matando a sede no laguinho, com suas galhadas e suas pernas finas tão bonitinhas, e a índia de peito de fora ainda ia estar tecendo o mesmo cobertor.  Ninguém seria diferente.  A única coisa diferente seríamos nós.  Não que a gente tivesse envelhecido nem nada.  Não era bem isso.  A gente estaria diferente, só isso.  Podia estar metido num sobretudo, dessa vez (…)  Ou então a gente tinha ouvido o pai e a mãe da gente terem a maior briga no banheiro.  Ou então a gente tinha acabado de passar, na rua, por uma poça d’água com um arco-íris de gasolina dentro dela. Quer dizer, a gente estaria diferente, de um jeito qualquer – não sei explicar direito, mas o negócio é assim mesmo.  E, mesmo que eu soubesse, acho que não ia ter muita vontade de explicar”(pg. 51)

Com esse trecho lindo, inicio a resenha do O Apanhador no Campo de Centeio, deixando claro que, diferente do que eu pensava antes de iniciar a leitura do livro, ele não se trata de uma história de fazenda, agricultura ou colheita. Muito pelo contrário. O Apanhador no Campo de Centeio tem como cenário uma das maiores metrópoles do mundo: a cidade de Nova York. Mas não a Nova York de hoje que costumamos ver nos filmes e seriados atuais. Trata-se da vida urbana dos anos 50; a vida urbana pós-guerra e com seus princípios ainda conservadores.

Quebrando muitos paradigmas da época, o autor escreve O Apanhador no Campo de Centeio e causa um grande alvoroço na população da época. Os motivos do choque?

  1. O personagem principal do livro é um adolescente. Todavia, adolescentes nos anos 50 não eram personagens principais em nada. Eram se quer vistos. Foi a partir da metade dos anos 50 e início dos 60 que a juventude passou a ser tratada como temática e percebida pela população. A esse fator, incluímos a explosão do rock n roll e de ícones da cultura da época, como por exemplo, James Dean e Elvis Presley.
  2. Não contente em ter um adolescente como narrador de sua própria jornada, o autor escreveu de tal modo que fosse exatamente a maneira como o adolescente falava, com simplicidade na linguagem e a escrita repleta de gírias, fugindo do coloquial.
  3. Durante a narrativa, o personagem aborda temáticas tais como namoro, sexo, puberdade, etc.

Essa mistura de ~escândalos~ transformaram O Apanhador no Campo de Centeio em um dos livros mais importantes e aclamados da literatura americana.

A história é narrada por Holden Caulfield, um jovem de 17 anos, de uma família de classe média alta que pela “milésima vez” é expulso do colégio. Porém, não seria certo dizer que Holden é um rebelde sem causa. Apesar do ódio que sente por tudo e todos, suas expulsões frequentes e sua dificuldade em fazer e manter amigos, Holden é apenas um adolescente que se recusa a crescer.

Ele busca seus modelos, mesmo não sabendo ao certo o que deseja; o irmão mais velho, antigos professores, um ex-colega de escola, são pessoas de quem Holden retira aprendizados, ainda que não perceba. Ser adolescente é se moldar, certo?! Todos já fomos adolescentes e sabemos como é difícil tal fase. Uma vez que, somos grandes demais para sermos crianças e novos demais para sermos adultos por completo. E é nessa transição angustiante emocional, física e psicologicamente em que Holden se encontra. Com sua síndrome de Peter Pan, Holden recusa-se a se render ao sistema acadêmico, as regras familiares, as amizades vazias e aos modismos momentâneos.

E para exemplificar seu processo, Holden utiliza, genialmente, a metáfora do campo de Centeio e do seu grande abismo.  O que ele não quer para si, não deseja para mais ninguém. Acredita que o mundo dos adultos seja repleto de hipocrisia, inconsistência e pessoas ainda mais perdidas (ele tem razão, né?!)

“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começa a correr sem saber onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Quando se termina a leitura do livro, logo se pensa que Holden tem muito que aprender e viver. Mas, bem no fundo, a gente deseja que tudo aconteça na hora e momentos certos. Sem pressões, sem precocidade… para que, apesar de muitas vezes triste, ele desfrute da sua juventude.

O Apanhador no Campo de Centeio mudou a minha vida.

O principal motivo é a identificação que Holden trás a tona. A sua marginalidade é tão visível, que desperta a empatia e aquela sensação de “Holden, eu te entendo.” Assim, o grande abismo passa a fazer tanto sentido que explica o porque da influência do livro nas contraculturas das décadas posteriores. Holden é um herói por essência e o seu desejo de “salvar” os seus semelhantes do grande abismo é uma das ideias mais lindas que já experimentei conhecer. Grata por essa leitura!

Além disso, a obra de J. D. Salinger, foi referência para outros artistas.
Por exemplo, a banda Green Day gravou a música “Who Wroten Holden Caulfield?”. E o Guns N’ Roses, a música “Catcher In The Rye”.

“He makes a plan to take a stand but always ends up sitting.
Someone help him up or he’s gonna end up quitting…”


Uma ótima vida.
Valeu! :*

 

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O impacto de um livro

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A obra do mexicano Jorge Méndez Blake está rolando pelas páginas de literatura das redes sociais.
Jorge Méndez Blake manipula a literatura clássica. Ele conecta literatura e artes visuais por meio da criação de obras tridimensionais, onde combina objetos naturais e fabricados, além do uso de desenhos e intervenções ambientais.

Para saber mais sobre o artista, acesse seu site: http://www.mendezblake.com/

🙂


Uma ótima vida!
Valeu. :*

Sem Plumas

Sem Plumas, Woody Allen – Ed. Circulo do Livro S.A., 1978 SEM_PLUMAS_1289081178B

Já fiz um recortes de trechos desse livro aqui no blog, mas ao terminar a leitura achei que seria legal contar mais.
O livro contém fragmentos do diário de Allen, ensaios e duas peças de teatro. Tudo é escrito com um humor sarcástico e gostoso. Woody Allen é engraçado por essência.

Como o livro é uma reunião de coisas, escolhi os pontos altos, ou seja, meus escritos preferidos:

1) Morte (Peça de um ato): Um homem é acordado no meio da noite para entrar em um plano a fim de capturar um tarado que está a solta pela cidade. Apesar de desnorteado, ele acaba indo e… coisas acontecem.

2) Guia breve, porém útil, da desobediência: Aqui, Allen da dicas básicas sobre como iniciar uma revolução (rs).

Para se fazer uma revolução precisa-se de duas coisas: primeiro, alguém ou alguma coisa contra a qual se revoltar; segundo, alguém para fazer efetivamente a revolução. O traje é informal e ambas as facções devem ser flexíveis a respeito o local e hora do evento.” (pg. 125)

Ele nos conta também sobre alguns métodos de desobediência civil.

Greve de fome: Quando o oprimido fica sem comer até que suas exigências sejam atendidas (…)  O problema da greve de fome é que, depois de alguns dias, fica-se com uma bruta fome, e o governo então se aproveita para fazer com que todos os alto-falantes transmitam exclamações como “Hum… que delicia esta galinha…” ou “Pode me passar o molho?” ou “Já provou esta mousse?”. (pg. 126)

Greve sentada: Quando uma pessoa escolhe um determinado lugar na fábrica e senta-se sem trabalhar (…) Como na greve de fome, os opressores tentarão por todos os meios fazer o grevista levantar-se. Poderão dizer: “Ok, rapazes, é hora de ir para casa!” ou “Podia levantar-se um pouquinho? Queria ver se você é mais alto do que eu.

Passeatas: A principal finalidade de uma passeata é a de ser vista pela população (…) Durante a passeata é conveniente levar faixas e cartazes, para deixar em claro a posição dos manifestantes…” (pg. 127)

3) Ensaio sobre o amor:
É melhor amar ou ser amado? nenhum dos dois, se a sua taxa de colesterol estiver acima de seiscentos. Quando falo de amor, naturalmente me refiro ao amor romântico (…) Para ser um grande amante deve-se ser forte e, ao mesmo tempo, terno. Mas forte até que ponto? Acho que basta conseguir levantar trinta quilos. É preciso também ter em mente que, para quem ama, a mulher amada é sempre a coisa mais linda do mundo, mesmo que para um estranho ela seja indistinguível de um prato de mexilhões. A beleza está nos olhos de quem vê. Se quem vê for míope ou estrábico deve perguntar a pessoa ao lado qual é a garota mais bonita.
“As alegrias do amor duram apenas um instante”, catou o bardo, “mas suas dores duram uma eternidade”… (pg. 123)

4) Se os impressionistas tivessem sido dentistas: Allen recria as cartas que o pintor Vincent Van Gogh enviava ao seu irmão Theo. Conta os fatos como se, ao invés de pintor, Van Gogh fosse dentista.

Prezado Theo,
Sim, é verdade. A orelha à venda no mercadinho é a minha. Acho que fiz uma besteira, mas eu queria mandar um presente de aniversário a Claire no sábado passado e todas as lojas estavam fechadas. Não sei porque ela a vendeu para o mercadinho. Ora, bolas. talvez eu devesse ter ouvido o que papai dizia e me tornado pintor. Pode não ser tão emocionante, mas a vida seria mais estável. (pg. 224)

.haha.

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Uma ótima vida!
Valeu. :*

Conto: Crepúsculo de chumbo e ouro (Cristovão Tezza)

Do livro Contos para ler no bar (org. Miguel Sanches Neto)
Ed. Record, 2007.

Crepúsculo de chumbo e ouro – Cristovão Tezza (pg. 25)

           Essa história de escritor nasceu errada do princípio: ideia de Mara.
– Por que você não põe teus pesadelos por escrito? Uma terapia, meu amor. Solte o verbo, só faz bem.
Fui mordido pela mosca azul. Um escritor! Nada mau! E a ideia vindo de Mara, melhor ainda – isentava-me de responsabilidade. Comecei do começo: comprei uma máquina de escrever e 500 folhas de papel sulfite. Não era bem assim que Mara pretendera – a conversa de pesadelo e terapia -, mas eu tinha tal horror de me descobrir e não gostar do resultado que comecei por contar a história dos outros. Iniciei com um pavoroso homicídio num corredor sombrio, em que uma mulher loura era retalhada a navalha e depois empacotada numa lata de lixo. O crime foi presenciado por uma criança e um velho, que se esconderam num porão. Depois de algumas peripécias confusas, a loura ressurge na beira de um penhasco, nua, rodeada de cães fiéis e ferozes. Não sabia mais como acabar aquela idiotice; coloquei a palavra Fim – eram já umas quatro horas da madrugada – e no mesmo dia corri para mostrar a Mara, bicho amestrado a espera do torrão de açúcar.
– Não está mau – disse Mara, mordendo o lábio. Sorriu traiçoeira: – Pelo menos não está muito mau. A propósito: paralisar escreve-se com esse.
Enquanto ela mesma corrigia miudezas com a caneta, eu percebi, satisfeito e irritado, que ela sentiu inveja. O sintoma: não olhava para mim. Não que a história fosse boa. Bastou Mara fazer correr seus belos olhos pelas linhas do texto, silenciosamente, página a página, com um sorriso infinitesimal suspenso nos lábios carnudos, para o sangue me subir à cabeça e eu morrer de formigamento e suor. Estava nu, justamente diante da minha maior inimiga. Mas havia alguma coisa naquele conto sem pé nem cabeça que perturbou Mara, que mesmo a incomodou, e mais ainda pela necessidade nervosa de aparentar benevolência.
– Essa loura sou eu, suponho.
– Ahn! Não pensei nisso. Você é morena.
– É claro.
– Como assim?
– O inconsciente, meu anjo. A censura. – Suspiro, e um sorriso: – Mas você é mesmo brilhante para um início de carreira. Que clima fantástico você criou! Ainda pode ser um bom escritor, mesmo.
– Não quero ser bosta nenhuma.
Recusei o beijo oferecido, mais por birra – a mosca azul surtia efeito -, e estendi o braço para recolher minha vergonha. Ela dobrou as folhas e guardou-as na bolsa. Reclamei:
– Me dê aqui esse troço de volta.
– Nada disso. Vamos mostrar para Fontana.
– Que Fontana?
– Um cara que entende de estética. Você precisa de alguns macetes. E agora me dê um beijo. Serei a sua empresária. Juntos, moveremos o mundo!
Tentei decifrar aquela ambiguidade; difícil acreditar que ela estivesse orgulhosa de mim. Talvez sim, pelo fato de eu ser um pupilo. E talvez ela desejasse que o conto resultasse mais ridículo ainda. De qualquer modo, no fim da tarde ela me levou ao bar Canarinho, onde Fontana presidia uma mesa ao pé da escada, já cheia de garrafas de cerveja, de admiradores e de um grande desencanto. Eu estava francamente nervoso; entrava de supetão no universo soturno dos homens das letras, dos escritores e dos poetas e, como sempre, sem preparo nem iniciação. Fontana não olhou para mim; preferiu prestar atenção à gravata, ao corte do meu terno, ao meu cabelo penteado, às minhas costeletas aparadas, à minha pasta de couro, talvez até o sapato lustroso – e sorriu, não sei se da minha imagem ou por deferência a Mara. Mara era irritantemente dada aos artistas, essa classe superior de gente. Trocaram beijinhos, toques de mão, sorrisos, numa cabala secreta. Havia outros Artistas à mesa, que não prestaram atenção à nossa chegada, exceto pelos olhares, rápidos e penetrantes, as pernas de Mara.
Fui rapidamente apresentado; abriu-se um espaço na roda, sentamo-nos e enchemos imediatamente os copos que o garçom, instantâneo, depositou na nossa frente. Fontana era poeta de prestígio e jornalista, sua profissão na vida real. Ficamos alguns dois ou três minutos sem assunto, até que Mara tirou da bolsa aquela bomba datilografada. Para controlar a vergonha (e o medo profundo do ridículo), bebi rapidamente minha cerveja, enchendo o copo, enquanto Fontana debruçava as barbas, severo, sobre a obra. Como estímulo, Mara apertava minha mão fria com seus dedos sedosos; aguardávamos tensos. Um editor de Nova York não seria tão respeitado. No meio daquele silêncio – o bar ainda com pouco movimento, Fontana sem despregar os olhos do papel – a imortalidade me sussurrou cânticos de glória. Quem sabe?
Virada a última página, o poeta pediu outra cerveja, depois de procurar alguma sobra nas garrafas vazias, e desfechou sem me olhar:
– Teu conto é um tanto ingênuo.
Antes que Mara começasse a me defender – tinha já empinado os peitos -, Fontana contemporizou:
– Mas é interessante.
O que, bem pensado, não quer dizer nada. Que merda fazia eu ali? Fiquei com um caroço na garganta. Teria Fontana encerrado seu veredicto? Não; deu um gole fundo, ocultou um arroto entre os dedos peludos, virou outra página, numa concentração sábia, e prosseguiu:
– É um texto romântico-fantástico. Mais para Poe do que para Kafka. Como você… – dedos torcidos no ar, ele procurava a palavra, os gênios também procuraram a palavra – como você definiria tua linha literária? – e me olhou nos olhos, surpreendentemente (para mim) como bonomia.
– Linha? – olhei para Mara, buscando socorro. Ela sorria, também esperando. – eu sou um ignorante. É a primeira coisa que escrevo.
Acredito que a simpatia de Fontana decorreu do fato de que eu não lhe fazer a mínima sombra. Encheu meu copo, protetor:
– O que você tem lido?
Mara me olhava, ansiosa – a infeliz realmente apostava nas minhas qualidades. Vamos lá, menino! Mostre de quem você é aluno!
– Eu?! – dei outro gole, demorado, para ganhar tempo. – leio… Leio um pouco de tudo, policiais, é… Os livros que a Mara me passa e… é isso ai.
Mara crispou as unhas na minha perna: com certeza eu estava enterrando para sempre meu futuro de escritor. Fontana agora era o general absoluto da mesa. Me remoí de ódio. A troco de que me submetia áquele inquérito ultrajante?
O mestre sorriu da minha bibliografia capenga e meteu novamente os olhos no conto, atrás dos defeitos. Bebi mais um gole.
– Posso dar uma sugestão?
– Claro.
Amargura azeda no peito, vi a imortalidade e o seu séquito de glórias desprezando-me para nunca mais.
– Você precisa trabalhar a linguagem. Enxugar o texto. Sabe como?
Fiz que sabia, já olhando a porta de saída.
– Por exemplo – e Fontana selecionou um parágrafo com a unha. – Ouça isto: nas ruínas despedaçadas da cidade, descia um crepúsculo de chumbo e ouro.
Fitou-me sorridente, à espera de que eu confessasse o crime. Virei um ouriço:
– Que é que tem?
Mãos me agarrando o joelho, Mara aconselhou pressentindo o estouro próximo:
– Preste atenção, meu amor, Fontana entende do riscado.
Fontana largou a página.
– Me desculpa, mas está muito ruim. Começa pela aliteração: despedaçadas da cidade descia. Soa mal, não? Da-da-da-da-da. Depois, a redundância: ruínas despedaçadas. Perfeitamente dispensável.
Meu rosto começou a queimar. Não suporto críticas: todas são destrutivas. Não suporto o mínimo arranhão aos meus gestos, falas, obras, pensamentos, atos – nada. Não posso tolerar o erro, passado, presente, futuro, consciente ou por acaso. Não admito reparos; sou inteiriço. Indiferente ao meu desespero – eu queria morrer-, Fontana prosseguia com requintes de crueldade e paciência:
– Até ai, tudo bem. Se a gente procurar, até a Clarice escorrega de vez em quando. Mas o ultimo trecho, por favor, não me leve a mal, mas é um horror: crepúsculo de chumbo e ouro! Um ranço, parece coisa do Coelho Neto, do pior Alencar, do…
-… Do José Sarney! – completou um dos Artistas, um barbudinho calhorda, explodindo numa gargalhada contagiante que Fontana (com uma ponta de respeito) reprimiu a custo.
Para início de conversa, foi o suficiente. Recolhi meu opróbrio da mesa, consegui dar um sorriso – sou vendedor, tenho de sorrir- e me arranquei, Mara atrás de mim feito carrapato.
– Que grosseria você me apronta!
– O Fontana que vá pra puta que pariu!
Continuei a andar, fumegando. Uma injustiça: hoje reconheço que aquela foi a melhor aula de literatura de toda a minha vida. Na Praça Osório ela me puxou com força:
– Calma, meu amor. Calma.
– Que de lado você está?
– Do teu, é claro. – parei superior, com vontade de chorar. – Mas, calma. No começo é assim. Não vamos brigar por besteira.
A mão dela estava quente na minha mão. Insisti:
– Crepúsculo de chumbo e ouro. Você não acha bonito?
– É claro que é. Ele não entendeu.
Decidi, fervoroso, nunca mais mostrar a ninguém nada do que eu escrevesse. Suspirei. Abraçados, contornamos a praça, enquanto descia na Curitiba em ruínas um crepúsculo de chumbo e ouro.

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Praça Osório – Curitiba – PR.

Sobre o autor: Cristovão Tezza nasceu em Santa Catarina, em 1952. Após a morte do seu pai, em 1959, mudou-se com a família para Curitiba, lugar que tomou como cenário para muitas das suas obras. :} 


Uma ótima vida!
Valeu. :*

O Grande Gatsby

Olá! 🙂
Vim até aqui para fazer uma resenha curta do segundo livro que li esse ano: o clássico O Grande Gatsby.

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O Grande Gatsby foi escrito pelo americano F. Scott Fitzgerald, e é considerado uma obra prima do autor. A obra foi publicada nos anos 20 e tal qual a realidade da época, fala sobre o período da Primeira Guerra Mundial e a juventude pós guerra.

O autor levanta questões como a prosperidade, o luxo, o materialismo sem limites e algumas questões morais.

A história é narrada pelo jovem Nick Carraway, que passa a observar as festas extravagantes na mansão do seu vizinho Jay Gatsby. Certo dia, ele é convidado para uma delas e se inicia assim, uma nova amizade.
No início do livro, Gatsby é um homem muito misterioso. A fonte da sua fortuna é motivo de boatos entre os que frequentam suas festas; alguns dizem que ele é traficante enquanto outros afirmam que Gatsby já matou um homem. Todavia, Gatsby, reservado sobre sua vida pessoal, abre-se com seu amigo Nick e lhe conta sobre seu antigo amor por Daisy, esta é prima de Nick e assim, é revelada a razão da aproximação entre vizinhos: Gatsby  quer se reaproximar da sua amada.
Acontece que passaram-se muitos anos desde que Gatsby e Daisy tiveram sua história de amor. Agora, Daisy é casada com Tom, um antigo atleta, com quem possui uma filha de 4 anos.
Nick atende aos apelos de seu amigo bilionário e prepara um encontro entre Gatsby e Daisy, encontros estes que começam a acontecer com frequência.
E quanto ao marido de Daisy? Tom também tem o seu deslize moral, ele possui uma amante para quem provê casa, comida e roupa lavada.
Em meio a descobertas, explosões emocionais, bebidas e festas, Nick nos conta como a história do Grande Gatsby se desenrola. E o final disso tudo é bem surpreendente! 🙂

A juventude é claramente impactada pela sociedade pós guerra. Jovens adultos loucos, embriagados, festeiros, artistas e fornicadores. Segundo relatos, o autor estaria fazendo uma critica ao famoso “Sonho Americano”.

O livro é curtinho e tem uma escrita bem fácil de ler. Se você for ansiosa (o) como eu, vai sofrer apenas com o fato de demorar pra entender ~qual é~ a do tal do Gatsby.

A obra ganhou uma peça a Broadway e duas adaptações para o cinema (filmes dos quais pretendo ver ainda).

Trailer do filme de 1974:

Trailer do filme de 2013:


Espero que gostem!


Uma ótima vida!
Valeu. :*

 

 

 

Eu te dedico

Oi, tudo bem?

Você já ganhou um livro com uma dedicatória linda ou ao presentear alguém com um livro ficou horas pensando o que escrever na dedicatória? Então, o Eu te dedico, é um projeto incrível que pode ser do seu interesse; no site há fotos de dedicatórias escritas em livros. Segundo o projeto, “um livro com dedicatória é um livro com duas histórias.” 🙂

Vale a pena conferir e passar um tempo no site se inspirando.

http://eutededico.com.br/

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Uma ótima vida!
Valeu. :*

O Iluminado e Doutor Sono – Stephen King

Dicas de leitura para o Halloween 🙂 e para a vida:

O titulo O Iluminado (1977), de Stephen King, ficou famoso pela sua adaptação ao cinema. Dirigido por Stanley Kubrick em 1980, o filme é um clássico do suspense. Com uma atuação impecável de Jack Nicholson é considerado por muitos como o filme mais assustador já visto.

O-Iluminado-1980Entre filme e livro existem algumas divergências. Estas apontadas inclusive pelo próprio Stephen King que declara que apenas no seu livro é contata a verdadeira história de O Iluminado. Aliás, em entrevistas, Stephen confessou que ODIOU o filme (rs).

Em O Iluminado há suspense do começo ao fim! O desenrolar da historia trás cada vez mais apreensão ao leitor. Posso provar isso dizendo que foi o único livro da minha vida em que fiz pipoca para ler e considero como um dos melhores que já li. E pra quem ainda não conferiu nenhuma das duas obras, é interessante ver o filme ANTES, pois lembrar da cara maníaca do Jack Nicholson ao ler sobre seu personagem causa ainda mais medo.

A história  gira em torno da família Torrance.

O pai, Jack Torrance: um professor e escritor respeitado em sua área, porém alcoólatra e violento, situação que o leva ao desemprego.

A mãe, Wendy Torrance: uma dona de casa muito cuidadosa com o seu filho.

O filho, Danny Torrance: Apesar de parecer, Danny não é um menino comum. Altamente sensitivo, tem a capacidade de ouvir pensamentos e transporta-se no tempo, revendo o passado e fazendo premonições, sempre com a ajuda do seu amigo imaginário Tony.

Tudo se inicia quando Jack Torrance, desesperado por uma ocupação vai a uma entrevista de emprego para ser zelador de inverno no Hotel Overlook. No dia da entrevista, o empregador explicita para Jack os perigos do isolamento naquele hotel. Conta que o último zelador, Sr. Grady, sofreu de uma situação chamada de “síndrome da cabana”, uma reação de claustrofobia que ocorre quando um grupo de pessoas fica isolada por um longo período de tempo; o resultado disso são alucinações e violência. Sr. Grady, matou suas duas filhas com uma machadinha e sua esposa com uma escopeta, em seguida cometeu suicídio. Jack sabia que aquilo jamais aconteceria com ele, considerava-se um homem estudado demais para se deixar levar por alucinações. A família, vendo aquela situação como uma oportunidade, aceita as condições do empregador e muda-se temporariamente para o hotel.

Nada parecia ser mais perfeito, a família poderia passar mais tempo juntos, longe da cidade e Jack Torrance teria tempo e sossego suficientes para terminar o seu novo livro e reerguer sua carreira.

Todavia, o Overlook não era um hotel como os outros. Ele escondia segredos e demônios do passado, que aguardavam a primeira oportunidade de vulnerabilidade para que espíritos malignos que ainda residiam no hotel demonstrassem o seu ódio.

Os seus pais estavam felizes, mas Danny sabia que ali poderia ser a sentença de morte da família Torrance.

Presos no hotel, a reclusão da família começou a ser insuportável. Jack Torrance, não conseguia se concentrar na sua escrita e começou a sentir uma grave crise de abstinência da bebida. Foi então que começou a ter suas primeiras alucinações no bar do Hotel.

Conforme o tempo passava, Jack se tornava mais violento e delirante, se deixando dominar pelo demônio do Sr. Grady.

Enquanto isso, Danny Torrance sabia que seu pai estava se revelando uma pessoa perigosa e, ao explorar o hotel, se deparava cada vez mais com os espíritos que ali residiam.

A cena clássica do filme com Jack Nicholson com o rosto na fresta da porta correndo atrás da sua família com um machado aponta também para o ponto alto do livro. Quando Danny tenta de diversas maneiras avisar para a mãe o quão perigoso o seu pai pode se tornar e quando Jack Torrance, por fim, começa a perseguir a sua família pelos corredores do hotel, arrastando um taco de beisebol pelas paredes e gritando pelo nome de Danny.

Naquele inverno traumático, os poderes de Danny não foram os suficientes para salvar toda a sua família. Jack Torrance se foi junto com o Overlook.

Diante da curiosidade de saber o que aconteceu com Danny Torrance após sua saída do Overlook, Stephen King continua a história do menino iluminado em Doutor Sono (2011).

12188844_10205474995254665_361021907_nDanny agora é Dan.
Dan encontrou um modo de controlar o seu poder e deixar pra trás os traumas da infância. Assim como seu pai, tornou-se um alcoólatra. Não tão violento quanto ele, pois ele tinha em mente tudo aquilo que não queria se tornar, mas um ser humano fracassado que precisava vagar de cidade em cidade já que sempre perdia o emprego para a bebida.

Dan agora é um homem de meia-idade, cuidador de idosos e que recebeu o título de Doutor Sono devido a sua capacidade de trazer últimos minutos de paz aos idosos antes de falecerem.

Quando chegou à cidade de Teenytown, Dan decidiu que precisava parar de beber. Foi quando entrou no grupo dos Alcoólicos Anônimos e fez algumas amizades. Durante sua estadia na cidade e sua sobriedade, começou a ter contato telepaticamente com Abra Stone, uma garota de 12 anos que era ainda mais Iluminada que ele durante a sua juventude.

A história começa a ganhar suspense quando Abra é descoberta pelo Verdadeiro Nó – uma espécie de “vampiros” que percorrem as estradas em trailers e que se alimentam do poder de iluminação de crianças. Os membros do Verdadeiro Nó possuem mais de 100 anos e continuam com uma aparência jovem, vagam procurando crianças iluminadas para torturá-las e engarrafar o seu poder, que chamam de vapor. Ao se alimentarem com o vapor, continuam saudáveis e, até então, eternos.

Vendo o quanto corria perigo, Abra pede ajuda a Dan. Que junto com John, Billy e os pais de Abra, fazem de tudo para proteger a menina e acabar com o Verdadeiro Nó.

Na nota do autor, ao final do livro, Stephen cita a sua insegurança ao escrever uma continuação para o personagem de O Iluminado. Definitivamente, Doutor Sono não é tão bom quanto O Iluminado, confesso que esperava mais. Todavia, o livro não deixa a desejar no suspense e genialidade de Stephen King. É difícil definir um suspense como uma boa ou má história. Assim como as demais emoções, o susto é muito subjetivo, eu acho. 🙂

Espero que tenha valido a dica!
Happy Halloween!

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Uma ótima vida!
Valeu. :*